Jorge Drexler: Melhor do que o silêncio
- Rosane Queiroz

- 23 de jan. de 2021
- 5 min de leitura

São nove segundos de silêncio antes que Jorge Drexler responda à primeira pergunta: "O que você anda se perguntando?". Na tela do laptop, em uma chamada de vídeo, ele fala: "Minha preocupação é não entrar no piloto automático. Tentar escutar e ter a esperança de ser escutado. Quero estar presente, e vejo que a primeira pergunta é meta jornalística" (risos)", diz ele.
"Que viva la telefonia". A frase da canção que celebra a comunicação em "cada onda, cada cabo", faz ainda mais sentido no contexto da entrevista, direto de Montevidéu, em uma manhã de sábado, em São Paulo. Assim como na faixa Telefonia, em seu mais recente álbum, Salvavidas de Hielo, o cantautor uruguaio poetiza temas contemporâneos.
O consumo ganha tom de crítica, com "todo mundo tentando vender-te algo, todo mundo querendo comprar-te", na canção Silêncio, entre outras, que traduzem a necessidade de tempo, presença, empatia. "Gosto da integração como conceito. Da antiga ideia de que você sou eu e eu sou você de algum jeito. O mundo hoje se divide entre empáticos e não empáticos. Temos dois tipos de pessoas, políticos, seres humanos. Aqueles que consideram que o outro é um igual, e os que consideram que o outro é um inimigo", diz.
Limitação criativa
Não por acaso, em sua turnê Silente, que passou por cinco cidades brasileiras, em 2019, com ingressos esgotados, Drexler apresenta um show intimista. Entra em cena apenas com violões, sob um jogo de luzes impecável e um roteiro que não deixa uma ponta solta. "Vejo a limitação como um desafio criativo", diz ele. "Em uma época em que temos acesso a tantas coisas, o ato mais revolucionário, terapêutico e difícil é ficar em silêncio. Quando você tem de tudo, é preciso fazer uma curadoria."
E não é que ele consegue? Dias depois, podia-se ouvir cair um alfinete na plateia de 700 pessoas em um teatro lotado. O público, aos poucos, se entrega a profundidade da proposta. "Vivemos num momento em que a gente surfa na realidade. Sabemos muito pouco de muitas coisas. Isso não é mal. Mas eu proponho o paradigma do escafandrista: mergulhar fundo em uma só coisa", diz ele.
A batalha com o Whatsapp, contudo, é permanente. "Quando canto sobre o silêncio, canto por algo que também desejo." Mas sua visão é tecno-otimista: "Não se pode culpar o celular pela sua falta de limites. Nossas timelines são infinitas. Você tem de dizer basta, são três da manhã, já vi seiscentos gatinhos saltando... (risos) Se juntarmos a seleção com a abundância de informação, vejo um momento historicamente favorável para o ser humano."
Com 14 discos e prêmios importantes, como cinco Grammys Latinos, Drexler ficou mundialmente conhecido por ganhar o Oscar de canção original, com Al otro lado del río, em 2005. Feita para o filme Diários de Motocicleta, dirigido por Walter Salles, a primeira música em espanhol a levar o prêmio colocou o autor no centro de uma polêmica, quando a organização escalou o ator Antonio Banderas para interpretá-la. A decisão teria ocorrido pelo fato de Drexler não ser "conhecido o suficiente" nos Estados Unidos.

Protesto sem queixa
Ao receber o prêmio, ele cantou um trecho de música e se despediu de forma abrupta –o que foi encarado como um gesto de protesto. Relembrando o episódio, ele diz que jamais imaginou que ganharia e revela o que pensou durante os poucos passos que o levaram ao palco. "Não gosto de fazer discurso ou protesto explícito. Se a polêmica era aquela, eu usaria os 30 segundos para cantar. Foi um protesto sem queixa. Subscrevo as palavras de Leonard Cohen, ao receber o prêmio Asturias: 'Enfrentar a adversidade sempre com as ferramentas da beleza e da elegância'. Gosto dessa maneira de ver o mundo. Não é a única, mas é a minha."
Para completar o susto, recebeu a estatueta das mãos do popstar Prince. "Quando saímos do palco, disse a ele: 'Isso aqui é uma honra, mas conhecer você foi melhor ainda'! Não sei se ele se ligou", diverte-se.
Aos 54 anos, casado com a atriz espanhola Leonor Watling, Drexler vive em Madri. Pai de três filhos, Pablo, de 21 anos (do primeiro casamento), e o casal Luca e Lea, de 10 e 8, ele reflete sobre os mundos masculino e feminino. "A masculinidade está em crise", diz. E segue citando a letra da canção Homem, de Caetano Veloso: "Sou homem, pêlo grosso no nariz. Mas tenho inveja da longevidade e dos orgasmos múltiplos". (risos). Ao educar um menino e uma menina, conta que evita classificar valores por gênero. "Não sei o que são valores masculinos e femininos. Mulher e homem têm sistemas operativos maravilhosamente diferentes."
Gêneros complementares
A grande revolução dessa época, reconhece, é feminista. "O mundo está mais rico, com uma visão mais ampla, que vai além da visão masculina, que até então imperou. Mas a entrada da feminilidade na sociedade não precisa ser feita diminuindo a masculinidade. A masculinidade bem entendida, assim como a feminilidade bem entendida, tem seu lugar. Não se trata de uma guerra. Se você faz crescer o lado feminino, o lado masculino também se beneficia. São conceitos complementares, nunca contrapostos. Olha aí a necessidade de empatia de novo...", provoca.
O português fluente, quase sem sotaque, em 40 minutos de conversa, chama a atenção. "Meu professor de português foi o João Gilberto", brinca ele. Apaixonado por música brasileira, foi depois de ouvir Chega de Saudade que decidiu deixar a medicina para escrever canções."Eu vinha do mundo erudito. Ao ouvir João Gilberto, percebi que a canção podia atingir um nível de excelência que não conhecia. Que o limite entre Villa Lobos, Gismonti e João Bosco não é claro, como entre Tom Jobim e Pixinguinha também. A música brasileira não tem complexo de inferioridade, e isso é algo raro de encontrar", diz.
Um sonho ainda não realizado é gravar um disco inteiro no Brasil, onde se sente em casa. Quando vem a São Paulo, gosta de dançar forró. "Cresci numa família onde não se dançava. Tive de aprender a dançar depois de velho e foi uma experiência maravilhosa de abertura, humildade, de sair da vergonha e entrar no corpo", diz. É assim, entre partidas de futebol e posições de ioga em quartos de hotel, que revela seu segredo da boa forma. "Procuro estar contente, desfrutar a vida. Tenho uma ideia epicurea de felicidade, que é fazer uma coisa que me faça bem hoje, e não me deixe mal no dia seguinte. Dançar me faz sentir vivo", diz, entre a pausa e a despedida.
No show, o adeus vem em espanhol, na letra de Silêncio: “No encuentro nada más valioso que darte, nada más elegante, que este instante… de silêncio.”
Fotos: Sylvia Poch/Divulgação
Parte da entrevista foi publicada na revista Carbono Donna (2019)







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